'Maior qualidade de vida, com a IoT'

O uso de dados em tempo real transformará dramaticamente nosso trabalho, nossas empresas e nossa rotina. A IoT pode tornar as cidades mais eficientes, além de gerar receita para as empresas, diz Jeff Merritt, especialista em WEF.

Jeff Merritt, o principal especialista em Internet das Coisas (IoT) do Fórum Econômico Mundial, está convencido de que a emergente tecnologia transformará nossas vidas para melhor. Em uma entrevista exclusiva, ele explica como a IoT pode aumentar a eficiência e a receita das empresas de forma significativa.

 

Entrevista: Marc Engelhardt

Certa vez, você declarou que a Internet das Coisas (IoT) pode ser descrita de uma melhor forma como uma linguagem de design. O que você quer dizer com isso?

 

Jeff Merritt: Quando você é capaz de operar com base em dados em tempo real, isso muda toda a abordagem para a solução de um problema. No passado, nos acostumamos ao fato de que primeiro precisamos analisar o mundo ao nosso redor, e depois planejar as ações de acordo. Quando você tem dados em tempo real, você não precisa de adivinhação. Você pode apenas reagir em tempo real.

 

Como isso muda nossa forma de trabalhar?

 

Hoje em dia, não precisamos mais fazer planos pensando nas questões complexas, porque muito disso pode ser automatizado. Em seu local de trabalho, as luzes simplesmente se apagam quando não há pessoas nas salas, e os dispositivos entram no modo de suspensão. Não é preciso uma mesa individual em meu escritório, se eu souber em tempo real quem está usando quais mesas, quais salas e dispositivos. Já convivemos com alguns desses avanços, sem nos dar conta do quão significativa é essa mudança.

 

Sobre Jeff Merritt

Jeff Merritt é um renomado especialista em cidades inteligentes, IoT, tecnologias emergentes e inovação governamental. Desde novembro de 2017, ele é Chefe de IoT, Robótica e Cidades Inteligentes do Fórum Econômico Mundial, Centro da Quarta Revolução Industrial. De 2014 a 2017, ele foi o primeiro diretor de inovação de Nova York, criando o Escritório de Tecnologia e Inovação, ligado ao Governo do Município. Seu trabalho foi reconhecido no Smart City Expo World Congress, em 2016 e 2017, com os prêmios de Melhor Cidade Inteligente e Ideia Mais Inovadora. Ele mora em São Francisco, com sua esposa e duas filhas.

Quando você é capaz de operar com base em dados em tempo real, isso muda toda a abordagem para a solução de um problema.
Jeff Merritt, Expert em IoT no Fórum Econômico Mundial

Essas inovações eventualmente acabarão com nossos empregos?

 

Não. Os dispositivos conectados facilitarão nossa vida, da mesma forma que os telefones celulares. Imagine que você é um fazendeiro: Você não precisará realmente entrar em sua plantação para verificar como estão as suas colheitas. Você terá sensores ou vistas aéreas com drones, para conferir se há alguma ameaça às suas plantações, ou se o solo está seco ou carece de nutrientes. Graças aos dados em tempo real, você aumenta o rendimento da sua colheita, e diminui a quantidade de recursos a serem utilizados - fertilizantes, água, tudo.

 

Então a IoT melhorará nossa vida profissional?

 

Absolutamente! Realizamos um estudo no ano passado, que analisou o impacto de mais de 300 casos de uso de IoT, e uma das aplicações mais promissoras dessa tecnologia é melhorar a saúde e o bem-estar dos trabalhadores. Se você é motorista de caminhão, pode ser protegido por um simples acessório (wearable), que pode identificar, por exemplo, se você está se sentindo cansado. O mesmo vale para um ambiente de fábrica. No caso de um derramamento de água, um aumento repentino dos níveis de monóxido de carbono, ou caso você esteja prestes a cair ou escorregar: podemos detectar, alertar e evitar imediatamente qualquer risco iminente.

 

E quanto aos ganhos de eficiência?

 

A área de manufatura foi uma das primeiras a adotar a IoT, e um dos maiores ganhos de eficiência é a manutenção preditiva, a qual permite o monitoramento de peças ou componentes específicos de um maquinário pesado, para prever sua substituição antes que uma quebra ocorra, por exemplo. Isso pode mudar toda a sua linha de produção. Além disso, com a IoT e o padrão de conectividade 5G, temos cada vez mais dispositivos sem fio. Com as mudanças nos padrões de produção, uma fábrica pode ser reorganizada em tempo real, pois os dispositivos podem ser facilmente movimentados.

Isso permitirá quais tipos de mudanças nos modelos de negócios?

 

Em quase todos os setores, teremos que repensar a forma como fazemos negócios. Porque, se você quiser, poderá usar dados em tempo real e tornar suas operações reativas e preditivas. Além disso, há uma colaboração em grande escala, com base no que chamamos de gêmeos digitais, que são basicamente uma versão digital de um ambiente físico. Se uma peça de um maquinário pesado falhar em uma mina na África Subsaariana, alguém de qualquer lugar do mundo poderá diagnosticar e até operar remotamente usando a IoT.

 

Então as oportunidades são infinitas?

 

Exatamente, e esse é, de certa forma, o nosso maior desafio. É essa variedade de oportunidades que faz com que diversifiquemos e tentemos novas coisas. No Fórum Econômico Mundial, tentamos ajudar a impulsionar o investimento, tanto por empresas quanto por governos, para focar nos casos de uso que foram testados, e gerar benefícios sociais claros. Se apenas ficarmos empolgados com o que há de novo, teremos uma variedade de projetos piloto, sem que as implementações atinjam todo o seu potencial.

 

Em qual aspecto teremos o maior impacto?

 

As cidades serão as mais impactadas pela IoT, em parte porque o que temos hoje é uma urbanização massiva. Toda semana, aproximadamente 3 milhões de pessoas passam a viver em cidades. Isso coloca uma enorme pressão sobre os serviços e operações urbanas. Vemos isso em lugares como a Índia, onde o tráfego pode paralisar cidades e economias locais. A IoT pode tornar as cidades mais eficientes. Quando eu trabalhei no governo da cidade de Nova York, começamos a operar remotamente todos os nossos sinais de trânsito e a colocar sensores de localização geográfica em todos os ônibus. Em seguida, combinamos esses dois dispositivos conectados para que os ônibus de Nova York pudessem sinalizar sua localização para um semáforo, para fazer com que este permaneça verde por mais tempo, para priorizar esse ônibus. Isso levou a uma redução de 20% no tempo de deslocamento, e incentivou as pessoas a deixar o carro em casa e a usar o transporte coletivo.

Em quase todos os setores, teremos que repensar a forma como fazemos negócios devido à IoT.
Jeff Merritt, Expert em IoT no Fórum Econômico Mundial

Qual é o grande desafio?

 

A enorme complexidade. Alterar as operações para que elas sejam controladas por dados em tempo real é uma enorme quebra de padrão. A abordagem também deve ser estratégica, para conectar diferentes tipos de sistemas e problemas. Se você estiver instalando uma câmera em uma rua da cidade, por exemplo, essa câmera poderá ser usada para contar o número de pessoas ou carros, ou para detectar anomalias que podem ser sinais de atividade terrorista. É possível aproveitar muito mais do potencial de um dispositivo com uma visão mais holística. Os maiores benefícios surgem quando relacionamos casos de uso para criar uma cidade inteligente, uma fábrica inteligente, uma fazenda inteligente.

 

O que é mais empolgante em um futuro moldado pela IoT?

 

O potencial impacto na qualidade de vida. Nossa pesquisa sobre centenas de implementações de IoT mostrou que 84% delas tratavam diretamente ou tinham potencial para atender às Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU. Essas implantações foram mais comumente desenvolvidas para trazer economia para as empresas, e de fato, elas fizeram isso. Porém, elas tiveram efeitos secundários ao reduzir a quantidade de energia utilizada, a poluição, e aumentar a produtividade. Conversamos muito sobre fazer coisas boas para a Terra e a economia, e a IoT torna isso muito mais fácil.

 

Isso vai demorar?

 

Não. No momento, temos metas críticas relacionadas às mudanças climáticas e, se estivermos focados, poderemos ver alguns desses ganhos em questão de anos. Quando você cria um sistema de energia inteligente para um edifício e monitora seu uso de energia, por exemplo, você vê uma redução imediata no consumo de energia de cerca de 20%. Os processos automatizados com dados em tempo real geram uma economia imediata.

 

 

Marc Engelhardt, é correspondente na ONU, em Genebra, trazendo informações sobre organizações internacionais e desenvolvimento global em economia, ciência, política e energia. Ele trabalhou como correspondente de vários meios de comunicação, incluindo o Neue Zürcher Zeitung, ARD e Die Zeit.

 

Créditos da imagem: Siemens AG, Fórum Econômico Mundial

04/11/2019.

Assine a nossa newsletter

Mantenha-se atualizado o tempo todo: Tudo o que você precisa saber sobre eletrificação, automação e digitalização.