Fórmula da Descarbonização de Hong Kong: menos combustíveis fósseis, menos carbono

Comprometida na redução de até 36% de suas emissões de carbono até 2030, Hong Kong, a quarta região mais densamente povoada do mundo, enfrenta uma série de desafios individuais. Entretanto, as soluções que estão sendo desenvolvidas aqui, diz Richard Lancaster, Diretor Executivo da CLP Holdings, podem ser usadas em todos os centros urbanos da Ásia.

Há uma razão pela qual Hong Kong é chamada a cidade mais alta do mundo: Com 7 milhões de pessoas em pouco mais de 1.000 quilômetros quadrados, Hong Kong, uma das regiões mais densamente povoadas do mundo, foi obrigada a ter mais arranha-céus. Apesar de ser algo de tirar o fôlego, a falta de espaço de Hong Kong também é um desafio para a geração de energia e a redução da pegada de carbono em Hong Kong — um desafio agravado pelo fato de que a cidade também carece de recursos energéticos naturais. A Siemens Magazine se reuniu com Richard Lancaster, Diretor Executivo da CLP Holdings (CLP), para falar sobre a nova turbina a gás que está sendo incluída em sua Black Point Power Station, bem como o desenvolvimento de soluções para geração de energia e sustentabilidade em Hong Kong – e além.

Sr. Lancaster, Hong Kong é incomum em muitos aspectos. Isso também é refletido na atual situação de energia da cidade?

Richard Lancaster: Não há muitas cidades com as características de Hong Kong. Uma coisa a considerar é que, em Hong Kong, operamos nos termos de “um país, dois sistemas”. Isto significa que Hong Kong é uma parte da China e possui um alto grau de autonomia. Temos nossa própria política energética na cidade, que pode ser diferente daquela do continente.

 

Dado que somos uma cidade em uma área pequena, não temos recursos energéticos naturais. Tudo tem de ser importado para Hong Kong. Temos terras muito limitadas e uma população de 7 milhões de pessoas que vivem em “arranha-céus”. Não temos muita necessidade de aquecimento, mas precisamos de ar condicionado. Somando tudo, temos aqui um conjunto único de circunstâncias. Quando se trata de nossas escolhas energéticas, nossa matriz energética e as soluções que desenvolvemos em Hong Kong realmente refletem nossa geografia e nossa falta de recursos de energia. Portanto, talvez tenhamos menos opções do que muitas outras cidades. 

Como uma cidade densamente povoada como Hong Kong enfrenta o desafio de ter espaço limitado para construir locais para geração de energia?

As usinas de energia em Hong Kong tendem a ser muito grandes. Isto é para fazer o uso mais eficaz da terra disponível. Além disto, Hong Kong está importando cerca de um terço de sua eletricidade da província de Guangdong, na China continental. Os dois terços restantes são gerados aqui em Hong Kong.

Que implicações isto tem para a matriz energética da cidade?

Uma das implicações é que a energia renovável não é uma parte importante da matriz energética em Hong Kong. O principal desafio não é a tecnologia — a tecnologia está disponível. O desafio é o acesso à terra, e isso é muito escasso em Hong Kong. Temos aqui apenas 1.100 quilômetros quadrados de terra. Nestas circunstâncias, a acomodação residencial é a prioridade. Portanto, mesmo que tenhamos algum espaço disponível, a prioridade do governo é encontrar espaço adicional para moradia. É por isso que temos que procurar outras soluções. 

Então, qual é a abordagem econômica e ecológica correta para a geração de energia sustentável em Hong Kong?

Temos um conjunto de ferramentas que estamos analisando e a tecnologia inteligente para gerenciar a demanda é uma parte importante dele. Além disto, nossas metas de redução de carbono para 2020 nos levarão a 50% de gás natural, 25% de energia nuclear e 25% de carvão. Quando isto for alcançado, a CLP adicionará ainda mais capacidade de gás, o que nos permitirá fechar uma de nossas duas usinas a carvão.
 

Como próxima etapa, o governo lançou uma consulta pública no segundo semestre de 2018 para analisar as metas da cidade para 2030 em diante. Com relação às fontes de energia, para Hong Kong as opções são realmente quanto gás utilizamos e quanta energia nuclear importamos da Província de Guangdong. 
 

Isto não significa que nós nos esquecemos das energias renováveis. Como parte do novo Acordo de Esquemas de Controle — o acordo com o governo de Hong Kong — introduziremos tarifas de fornecimento de energia renovável que possibilitarão que escolas, universidades e outros locais que possuem maiores áreas à sua disposição coloquem painéis de energia solar em seus telhados, e nós vamos comprar deles a energia, a uma taxa fixa. Portanto, mesmo em pequena escala, podemos incentivar soluções inovadoras para energia renovável em um ambiente urbano denso. 

Você disse que a tecnologia inteligente — em outras palavras, a digitalização — é uma parte importante. Qual o papel que ela está desempenhando?

A digitalização está nos fornecendo duas grandes categorias de benefícios. Uma delas é que podemos tornar nossas operações melhores, mais baratas e mais rápidas. Podemos oferecer melhores níveis de serviço para os clientes, prognosticar melhor os problemas e ser mais eficientes na forma como fornecemos nossa energia e como operamos nossas usinas. É um conjunto de benefícios.

 

A outra — e esta se liga à nossa matriz energética e nossas metas de carbono — é a gestão pelas demandas. Com a tecnologia de medidor inteligente, agora podemos ter informações atualizadas sobre como os clientes estão usando a energia. Se conseguirmos que nossos clientes ajustem um pouco o seu comportamento nos dias em que estivermos vendo um pico na demanda de energia, poderemos diminuir essa demanda, o que significa que nós podemos evitar a necessidade de desenvolver capacidade de geração adicional.
 

Nunca fomos capazes de fazer isso no passado. Mas agora, com medidores e dispositivos de comunicação inteligentes, podemos deixar que nossos clientes saibam quando gostaríamos que eles reduzissem a demanda, além de oferecer incentivos financeiros. Portanto, podemos dizer que se você economizar uma unidade de eletricidade, nós lhe pagaremos dez vezes aquilo que, de outra forma, cobraríamos para você. É um grande incentivo financeiro. Podemos nos dar ao luxo de fazer isto porque os benefícios que obtemos ao evitar a necessidade de desenvolver mais capacidade são bastante substanciais. 

É possível quantificar a diferença que isso faz em termos de consumo de energia e de matriz energética?

Deixe-me lhe dar um exemplo: Atualmente, estamos construindo uma usina de energia de ciclo combinado de 550 megawatts em nossa Black Point Power Station, aqui em Hong Kong – uma das maiores usinas a gás do mundo. A nova unidade estará em operação até 2020 e, até 2023, teremos uma unidade adicional do mesmo tipo no local. Portanto, vamos incluir cerca de 1.100 megawatts de capacidade de gás. Embora isto seja pouco, não é o bastante descontinuar nossa usina movida a carvão de 1.400 megawatts.
 

Mas também usaremos tecnologia inteligente, que nos ajuda a gerenciar melhor a demanda. A aplicação desta tecnologia inteligente permitirá economizar cerca de 300 megawatts. Como resultado, poderemos desativar uma usina inteira movida a carvão com capacidade de 1.400 megawatts. Os ganhos da tecnologia inteligente diminuem a diferença entre nossos 1.100 megawatts de nova capacidade de gás e os 1.400 megawatts gerados na usina movida a carvão. Portanto, poderemos desativar nada menos que 50% de nossa capacidade de carvão nos próximos cinco anos. É um grande passo. A mudança do carvão para o gás reduzirá as emissões de carbono em 50%.

A nova turbina que você está instalando no Black Point é uma turbina a gás para serviços pesados Siemens SGT5-8000H. Por que ela é uma boa escolha neste contexto?

A usina que estamos construindo é uma das mais eficientes do mundo. E isso significará que todo o nosso portfólio será mais eficiente, o que significa que estamos utilizando menos combustível e, portanto, produzindo menos emissões de carbono.

As soluções energéticas desenvolvidas aqui são relevantes para outros centros urbanos da região?

As cidades nesta parte do mundo tendem a ser bem diferentes daquelas da Europa, América do Norte ou Austrália, onde as pessoas geralmente moram em casas individuais e têm um grande teto sobre suas cabeças. Algumas das tecnologias que podem funcionar bem em uma cidade europeia não podem ser aplicadas a uma cidade na China ou na Índia.

 

Hong Kong é uma cidade densamente povoada, com crescente urbanização, e com a urbanização ocorrendo na Ásia, onde vivem 40% da população mundial, eu acho que um modelo de uma cidade com arranha-céus e densamente povoada será aquele que veremos replicados por toda a China, Índia e outras partes do sudeste da Ásia. Então, eu acho que as soluções que nós geramos em Hong Kong para reduzir o carbono fornecerão um bom exemplo, um bom modelo para outras cidades com arranha-céus na região da Ásia.

Falando sobre convergência e integração na Ásia, a Iniciativa Chinesa do Cinturão e Rota continua a produzir manchetes. Os negócios da CLP são compatíveis com isto?

Como deixamos de ter uma atividade concentrada em Hong Kong e depois na China, em prol de uma que se espalhava pelo Sudeste Asiático, iniciamos nossa própria iniciativa nos anos 90, desenvolvendo infraestrutura de energia em toda a Ásia, 20 anos antes da Iniciativa do Cinturão e Rota. Também temos nossas próprias ligações com o Cinturão da Ásia Central, porque temos fornecimento de gás que vem do Turcomenistão através de um gasoduto de 9.000 quilômetros, que termina na Black Point Power Station.

 

No entanto, a indústria de energia não está se movendo apenas para a geração de energia, mas também para o fortalecimento das conexões de transmissão com os países asiáticos. Estamos trabalhando com empresas estatais (EEs) chinesas para compartilhar parte de nossa experiência em novos mercados. Por exemplo, estamos fazendo uma parceria com a China Southern Grid para projetos de transmissão na Índia e trabalhando com eles no Vietnã em dois projetos. Portanto, em pequena escala, podemos trabalhar com algumas das EEs. Do nosso ponto de vista, a Iniciativa do Cinturão e Rota se trata apenas de negócios, como de costume. É o que temos feito nos últimos 20 anos.

28/11/2018

por Justus Krüger, jornalista radicado em Hong Kong.

Crédito da foto: Hans Sautter

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