Acelerar a descarbonização nos Açores com armazenamento de energia

A Ilha Terceira está a adotar tecnologia “grid edge” para reduzir o uso de diesel importado e passar a utilizar mais energia de fonte renovável.

O arquipélago dos Açores, já conhecido pela sua exuberante vida selvagem e flora, está prestes a ficar ainda mais verde mas numa outra vertente – tornando o seu fornecimento de energia mais limpo e menos dependente de geradores a combustível fóssil. Para atingir este objetivo, o arquipélago está a expandir a sua capacidade local de produção de energia renovável, com a chamada tecnologia “grid edge” a desempenhar um papel fundamental. Neste momento, a Siemens está a implementar na ilha Terceira um grande sistema autónomo de armazenamento de energia com base em baterias e um sistema de gestão inteligente da microrede,  para acelerar o caminho dos Açores em direção a uma rede elétrica mais sustentável.

Os Açores são muito conhecidos pela sua variedade única de plantas e animais. O arquipélago de origem vulcânica, situado a 1.400 km do continente, é povoado por espécies que não são encontradas em nenhum outro lugar do mundo. Mas, em breve, as ilhas terão mais outra atração – embora provavelmente mais interessante para quem gosta de tecnologia do que para os amantes da natureza: um dos maiores sistemas de armazenamento de energia da Europa está em construção na ilha Terceira, uma das nove ilhas habitadas do arquipélago.

 

A capital da Terceira, Angra do Heroísmo, tem um centro histórico e fortificações classificadas pela UNESCO como património mundial. Mas esta tecnologia de ponta permitirá agora fornecer mais energia renovável à cidade histórica e a todas as outras cidades da ilha.

Novo White Paper: Impulsionar a Revolução Energética

As tecnologias “grid edge” afiguram-se como uma ferramenta essencial na transformação global do sector da energia, facilitando a adoção de energias renováveis, transformando consumidores em “prosumidores” e mitigando as alterações climáticas. Muitos fatores têm influência sobre quais as soluções mais apropriadas para cada região ou se tais soluções estão prontas para serem implementadas em larga escala. Este White Paper define um índice poderoso que permite avaliar a necessidade relativa e o nível de preparação de várias regiões para a adoção de soluções “grid edge”, de modo a permitir a identificação de barreiras e oportunidades e de forma a acelerar esta revolução energética.

A história dos Açores no que se refere à utilização de energias renováveis remonta a décadas. No final da década de 1980, foram instalados os primeiros aerogeradores eólicos do arquipélago. A primeira central geotérmica foi inaugurada pouco tempo depois. Atualmente, todas as ilhas habitadas produzem energia a partir de fontes renováveis. Cerca de 40% das necessidades energéticas do arquipélago são satisfeitas por fontes renováveis. A energia geotérmica é especialmente significativa e representa 60% do total da eletricidade renovável produzida. O restante vem principalmente de parques eólicos e centrais hidroelétricas.

Uma ilha paradisíaca em risco

Como todas as ilhas, os Açores são especialmente vulneráveis a alterações climáticas. A subida do nível do mar ameaça áreas costeiras baixas. Além disso, investigadores esperam que muitas ilhas venham a ter de enfrentar secas prolongadas nas próximas décadas - uma potencial ameaça ao abastecimento de água potável.

 

Obviamente, as ilhas não conseguem resolver este problema por si só, mas podem contribuir para reduzir as emissões globais de CO2. Nos Açores, esta contribuição faz parte de uma estratégia energética abrangente, a qual não só prevê uma expansão contínua das energias renováveis, mas também uma série de outras medidas, tal como incentivar a mobilidade elétrica.

 

Ao expandir a produção energética local a partir de fontes de energia renovável, os Açores resolvem dois problemas ao mesmo tempo. Mais energia a partir de fontes renováveis significa uma redução das emissões de gases com efeito de estufa. E a produção local reduz a dependência do continente, uma vez que cerca de 60% da energia necessária ainda é importada para as ilhas sob forma de combustíveis fósseis.

Armazenamento de energia para uma rede elétrica mais estável

Cada ilha tem a sua própria rede elétrica. Ou seja, não é possível modernizar o fornecimento de energia para todo o arquipélago. Pelo contrário, serão necessárias soluções individualizadas para cada ilha. Veja-se o exemplo da Terceira. Aqui, a empresa Electricidade dos Açores (EDA) aposta em tecnologias “grid edge” inovadoras, mais precisamente, num sistema de armazenamento de energia com baterias, com uma capacidade de 15 MW, combinado com o sistema de gestão da microrede Spectrum Power Microgrid Management da Siemens.

 

O sistema de armazenamento fornecido pela Fluence garante que a eletricidade produzida localmente não é desperdiçada e que é usada da forma mais eficiente possível. O sistema armazena o excedente de energia produzida, devolvendo-a à rede para cobrir a procura, quando a produção é demasiado baixa.

“Com a tecnologia de armazenamento em combinação com a aplicação de microrede, queremos maximizar a integração de fontes de energia renováveis na Ilha Terceira”.
Duarte José Botelho da Ponte, CEO da Electricidade dos Açores

O sistema de armazenamento também regula a frequência e a tensão da rede elétrica da ilha – e, portanto, melhora a estabilidade. "O sistema de armazenamento de energia que estamos a implementar vai ajudar a Ilha Terceira na transição para um novo mix energético", afirma Fernando Silva, responsável pela Smart Infrastructure da Siemens Portugal.

 

"Esta tecnologia permitirá um aumento da quota de energia renovável, limitando o consumo de combustíveis fósseis e reduzindo significativamente as emissões de gases com efeito estufa. Irá ainda aumentar a independência energética da Terceira, dando mais flexibilidade, capacidade, resiliência e autonomia à sua rede de energia."

Sistema inteligente de gestão da microrede garante eficiência

O Sistema de Gestão da Microrede Spectrum Power assegura que a produção de energia, o sistema de armazenamento e o consumo de energia trabalham em conjunto da melhor forma possível. Uma vez que permite a monitorização e o controlo em tempo real de toda a infraestrutura, sendo capaz de fazer projeções de produção, consumo e utilização de armazenamento hora a hora ou diariamente, com base numa ampla gama de dados, incluindo a meteorologia.

 

"Isto permite-nos traçar uma estratégia de operação otimizada e alcançar um equilíbrio ótimo entre o consumo e a produção de energia, e aumentar a segurança do fornecimento aos nossos clientes", afirma Duarte José Botelho da Ponte, CEO da EDA. " Com a tecnologia de armazenamento em combinação com a aplicação de microrede, queremos maximizar a integração de fontes de energia renováveis na Ilha Terceira. Ao mesmo tempo, queremos garantir um fornecimento de energia que cumpra os mais altos padrões de qualidade e fiabilidade."

 

O sistema consegue incorporar 6 MW adicionais no mix de energia de fontes renováveis ou endógenas, tais como a produção geotérmica. Isso significa que, com o novo sistema de armazenamento de baterias, a ilha será a médio prazo capaz de aumentar a sua parcela de energia renovável para cerca de 60%. Logo que esta meta for alcançada, o sistema de baterias que é modular, poderá ser expandido conforme necessário. Se assim for, seguirá o exemplo de outras redes insulares que visam uma descarbonização rápida como a Irlanda, que está a investir para alcançar, até 2030, a meta de ter 70% da sua eletricidade oriunda de fontes de energia renovável, e que também está a adquirir sistemas de armazenamento de energia com base em baterias para ajudar a cumprir estas metas.

 

A configuração atual evidenciará já melhorias quantificáveis. Espera-se que o consumo anual de diesel na ilha reduza em 1.150 toneladas métricas, porque haverá menos energia elétrica produzida por meio de geradores. Isso equivale a uma redução de mais de 3.500 toneladas métricas de emissões de CO2 por ano, ou seja, aproximadamente o equivalente a 1.500 veículos percorrendo 20.000 km cada um por ano. Afinal de contas, o novo sistema de armazenamento de energia provavelmente não será só do interesse dos fãs de tecnologia, mas também será apreciado pelos amantes da natureza.

11 de novembro de 2020

Imagens: Siemens AG / GETTY IMAGES